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Nesta escola do Lumiar, uma Ágora ensina que a ouvir os outros também se aprende

Apandemia não adiou a importância de se continuar a combater o insucesso escolar – bem pelo contrário. E na Escola EB 2,3 do Alto do Lumiar, isto faz-se através da arte. Os alunos ganharam um novo espaço, ainda por cima ao ar livre, adaptado a estes tempos, onde se podem reunir, e ali terão espaço para as suas ideias e para novas formas de aprender. 

O que nasceu aqui não foi um daqueles equipamentos tradicionais numa escola: uma cantina, mais uma sala. Aqui nasce… uma Ágora. Uma grande estrutura em madeira e chapa ondulada, construída no pátio da frente da escola durante o confinamento. E o que é uma Ágora no século XXI? Exatamente o mesmo que era quando o termo “ágora” foi cunhado, para designar uma assembleia popular na Grécia Antiga. Ganha novo significado nesta escola: será um lugar de diálogo entre os jovens, dos dez aos 14 anos. Ali irão debater, falar e ser ouvidos. Sobre o que querem da escola, as suas inquietações e vontades. Ali vão juntar-se alunos e educadores, numa casa-comum, nesse hábito de falar e escutar que despareceu de tantos lugares de ensino. Mesmo com a escola encerrada entre janeiro e abril, com o pátio vazio e silencioso – o que poderia ser um problema foi até uma vantagem – a Ágora construiu-se.

No Alto do Lumiar, combater o insucesso escolar é uma das principais preocupações de Maria Caldeira (na foto, em baixo), diretora do Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar. É preciso saber o porquê dos jovens deixarem de ir à escola. É preciso ouvi-los e saber o porquê da ida à escola não ser cativante. Há quatro anos como diretora, mas já “na casa” há 18, teve esta ideia da Ágora depois de notar o estado de degradação do equipamento escolar, a falta de motivação dos jovens e outras debilidades num conjunto de escolas que fica numa zona complexa, com vários problemas sociais. Para ela, a solução era envolver todos. “Desde muito cedo tive a consciência de que devemos trabalhar por e pelas artes, mas também no sentido coletivo da aprendizagem. Tudo se pode aprender através do ‘fazer’ e do ensino pela arte”, explica.

Os muros que rodeiam a escola falam por essa ideia. Pintados pelos alunos e por artistas locais convidados, as paredes desgastadas tornaram-se a tela perfeita para que a arte una e reúna professores, alunos, auxiliares e educadores.  Com vontade de continuar a dar novas cores à escola, decidiu contactar a Ensaios & Diálogos, que “já tinha debaixo de olho” depois de conhecer a “Casa do Vapor”, um projeto de arquitetura efémera e auto-construção dinamizado por esta associação na praia da Cova do Vapor, em Almada.

A isto, juntou-se a ideia de um local de convívio e reunião exterior, de que a escola sentia falta há algum tempo. Nasceu a intenção de fazer “algo de todos, feito por todos”, explica Maria Caldeira, e uma Ágora parecia a resposta certa. Como a própria diz, “ninguém aprende sozinho. Ouvindo os outros podemos sempre crescer.” O mote perfeito para estes dias após outros mais confinados e solitários. Além de contornar a rotina de ida para a sala de aula, a Ágora coloca os alunos no centro, mostrando-lhes que a escola também é um espaço onde podem imaginar, ouvir, falar e construir. 

Plantar a Semente, fazer acontecer

“Semente para a Comunidade” é o nome deste projeto, que nasce de uma parceria entre a Oficina do Gato Morto, da Ensaios & Diálogos Associação (EDA) e o Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar. Teve o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, através da linha de financiamento “Fazer Acontecer”.  É ainda um projeto-piloto que vai ser iniciado com uma turma de 7º ano que, na disciplina de Educação Visual, poderá reunir-se na estrutura. Mas o objetivo é que todas as turmas venham a participar.

Numa primeira fase do projeto, a equipa aproveitou a janela de oportunidade em que a escola estava fechada para construírem a Ágora. Miguel Magalhães e Ricardo Morais, ambos artistas e carpinteiros da EDA, trabalharam na construção com a ajuda de  Julien Fargetton, Laura Penez, Ricardo Sá da Costa, André Coral, Rui Ferreira (RAF) e Gabriela Antunes. Ao longo deste processo, Miguel comentava que “o mais difícil e estranho era estar numa escola vazia”. Sem alunos, “a construção nunca poderá estar verdadeiramente concluída”, comentava. 

Miguel explica que a Ágora quer mostrar aos jovens que “o que eles pensam, o que eles sonham e o que eles discutem poderá vir a dar resultados físicos”. Cria-se um novo espaço, onde todos se podem expressar livremente das mais variadas formas, das palavras à pintura. O trabalho vai-se fazendo e adaptando, mas só fica concluído com a tão esperada intervenção dos alunos, que poderão colorir esta ‘casa’ à sua própria maneira.

O ruído já enche esta nova casa

Com o regresso às aulas presenciais, o pátio volta a ganhar o rebuliço que lhe é próprio, com os alunos do 5.º ao 9.º ano. Já se pode jogar no campo de basquete e saltar por cima dos galhos das árvores caídos. Ainda nem tudo é igual. As máscaras no rosto anunciam que a pandemia está longe de terminar. Mas nem isso inibe a felicidade que todos sentem em poder estar novamente na escola, especialmente quando há algo novo para explorar. E, ao fim de três meses, iniciam-se os convívios na Ágora, já construída.

Sofia Costa Pinto, designer e anterior presidente da Ensaios & Diálogos Associação (com mandato entretanto terminado), explica que agora que as turmas regressaram às aulas presenciais vai ser possível iniciar a próxima fase do projeto. A ela, juntam-se Madalena Pornaro (arquiteta da EDA) e uma equipa de mulheres arquitetas da A-GRUPA que conta com Letícia Carmo, Ana Louback e Gabriela Antunes. A ideia é que esta equipa esteja presente para orientar algumas atividades, mostrar aos alunos como podem utilizar a Ágora da melhor forma e ajudá-los a avançar com as suas ideias para o terreno, ensinando-lhes como usar as ferramentas e técnicas necessárias. 

As bandeiras da juventude

Nas primeiras sessões abertas à discussão de ideias para decorar o espaço, logo se fez sentir a vontade que os alunos têm de estar naquele espaço e de o tornar ‘seu’, como é objetivo final do projeto. Bandeiras LGBT+, bandeiras Black Lives Matter, uma rampa em madeira para facilitar o acesso à Ágora e canteiros com flores que estarão ao cuidado de todos. “Foram estes os pedidos deles e é nisto que vamos começar a trabalhar, com a ajuda de todos”, conta Sofia.

Tal como no campo de futebol, aqui também se trabalha em equipa. Durante as sessões na Ágora, a turma divide-se, consoante os horários das aulas de Educação Visual e TIC. E nem essa divisão esconde o espírito de entreajuda e amizade que se sente entre os alunos.

Uns trazem música, outros dançam, falam e assim que acabam de cumprimentar as arquitetas, logo perguntam: “o que é que vamos fazer hoje?” Sempre com a energia evidente nos movimentos irrequietos de um lado para o outro ou da mudança constante de lugar, quando se sentam nos bancos dentro da Ágora.

Entretanto, a ação começa. Num canto do pátio, alguns alunos colocam a terra e as sementes nos canteiros que vão decorar a ágora. No outro, ajudam Sofia a colocar uma lona de proteção para a chuva. Os restantes vão trazendo as tábuas de madeira e as ferramentas com que vão construir a rampa de acesso.

“Vamos ser só nós?”, pergunta um dos jovens. Por sorte, a Ágora tem despertado os olhares curiosos dos restantes alunos que ali estudam. Não raras vezes, alguns aproximam-se e perguntam se é preciso ajuda. Outros preferem satisfazer apenas a curiosidade e saber o que se vai construir. A ajuda de todos é bem-vinda e até a Diretora de Turma e Professora de Educação Visual Ana Helena Baptista é convidada a juntar-se aos alunos.

O companheirismo e entreajuda são os reflexos do trabalho na Ágora que mais se têm feito notar no comportamento geral da turma, segundo Ana Helena Baptista. “Este é um espaço que pode ser de brincadeira, mas também de reuniões. Discutirem assuntos e perceberem o quão útil este espaço é para todos. Passa a ser um espaço alternativo de aula.”

É no final das atividades que se faz sentir o gosto e dedicação que os alunos têm àquele espaço. “Segunda e terça à tarde podem?”, pergunta Sofia à plateia de pés que balançam nos bancos, sem tocar no chão. “Eu posso vir todos os dias!”, responde uma das alunas. “Por mim, venho sempre!”, responde outro. “Mas podemos ficar até tarde, tipo meia-noite?”, acrescenta ainda outro jovem. A resposta deverá ter desiludido a expectativa, mas voltar podem sempre.

O que este espaço oferece aos alunos vai além de bancos de madeira e um telhado em chapa.

As pistas que ficam para o futuro 

Visível a qualquer um que por aqui passe, a EB 2,3 do Alto do Lumiar tem sido palco desta vontade coletiva que junta alunos e artistas na construção de uma escola melhor. E a vontade de fazer mais tem crescido.  “O Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar tem alunos que não se enquadram no sistema académico tradicional, mas eles não deixam de ter muitas capacidades que vão de encontro com o que nós fazemos”, descreve Sofia.

Os estudantes mostram-se interessados em aprender coisas novas com os artistas que têm passado pelo Alto do Lumiar. Ficam orgulhosos quando, à porta da escola, apontam para os murais pintados no exterior do pátio, mostrando-os aos pais, irmãos, colegas e a qualquer um que suba a rua, quando se ouve o toque de saída.

No anterior ano letivo (2019/2020), o Agrupamento viu 17 projetos aprovados e financiados pela “Fazer Acontecer”. Este ano, já conta com seis confirmados, entre os quais “Diálogos de Liderança”, na sequência das Academias Ubuntu, “Cenas de Teatro”, em parceria com o Teatro D. Maria II e “Jogos e Arte”.

O último, “Jogos e Arte”, será dinamizado por Rui Ferreira (mais conhecido por RAF). RAF faz grafitti e tem sido um dos principais artistas a dar novas cores ao Alto do Lumiar.  Vem continuar o despertar para a arte que está a acontecer entre os jovens desta escola. O próprio, bem como a diretora Maria Caldeira, gostam de usar o termo “Aldeia Criativa”, para descrever o pátio da escola. Esta “Aldeia Criativa”  leva a uma ideia de comunidade e partilha, onde há espaço para a imaginação e para o aprender, fazendo.

A Ágora é só a primeira “semente”.

Qualquer uma destas iniciativas serve um propósito comum: mostrar que a educação pode ser mais do que a aprendizagem de conteúdos dentro das salas de aula. A Ágora só o vem provar e “dar pistas” para uma transformação da realidade dentro de todo o Agrupamento. Sem nunca esquecer que a base é o diálogo e o saber ouvir o que os jovens têm a dizer. 

Contactos:

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